sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A menina que sabe tudo!

Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.
As pessoas até se irritavam, irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina a explicar a todo o momento o que as outras pessoas já sabiam!
Quando ela se dava conta, as pessoas à sua volta já se tinham ido embora. Então ela ficava lá, a explicar para sim própria.
Solidão é uma ilha com saudade de barco.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, o teu pensamento representa um capítulo.
Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.
Pouco é menos da metade.
Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da tua cabeça.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.
Agonia é quando o maestro de ti se perde completamente.
Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair do teu pensamento.
Indecisão é quando tu sabes muito bem o que quer mas achas que devias querer outra coisa.
Certeza é quando a ideia cansa-se de procurar e pára.
Intuição é quando o teu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.
Pressentimento é quando passa à tua frente o trailer de um filme que pode ser que nem exista.
Renúncia é um não que não queria ser ele.
Sucesso é quando tu fazes o que sempre fez só que as pessoas te são valor.
Vaidade é um espelho omnisciente, omnipotente e omnipresente.
Vergonha é um pano preto que tu queres para te cobrires naquela hora.
Orgulho é uma guarita entre ti e o da frente.
Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.
Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.
Raiva é quando o bichinho que mora em ti mostra os dentes.
Tristeza é uma mão gigante que aperta o teu coração.
Alegria é um bloco de Carnaval que não se importa senão é Fevereiro.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Amizade é quando tu não fazes questão e te emprestas para os outros outros.
Decepção é quando tu riscas em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.
Desilusão é quando anoitece em ti contra a vontade do dia.
Culpa é quando tu cismas que podias ter feito diferente, mas, geralmente, não podias.
Perdão é quando o Natal acontece em Maio, por exemplo.
Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.
Excitação é quando os beijos estão desatinados para sair da tua boca depressa.
Desatino é um desataque de prudência.
Prudência é um buraco da fechadura na porta do tempo.
Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.
Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está a dormir e assume o mandato.
Emoção é um tango que ainda não foi feito.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que tu és a casa dele.
Desejo é uma boca com sede.
Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, porque o amor a menina não sabia explicar!

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